Exclusive Interview with Matheus Nachtergaele about his film The Dead Girl’s Feast.

By Rodrigo Brandão

Screening for the first time in New York City on November 6 and 11, at the Museum of Modern Art (MoMA), Matheus Nachtergaele’s directorial debut The Dead Girl’s Feats (A Festa da Menina Morta) is an ambitious and fully accomplished feature film about religious expression (and fanaticism) in a fictitious and impoverished community in the Northeast of Brazil.

Featuring some of Brazil’s strongest actors in performances that range from physically challenging (in the case of Daniel de Oliveira’s maniacal ‘Santinho’, or ‘Little Saint’) to emotionally restrained (in the case of Dira Paes and Juliano Cazarré), The Dead Girl’s Feast in one of those rare occasions where several accomplished actors take huge risks behind the camera.

In this exclusive interview with director (and not the actor) Nachtergaele, we discover that the man behind some of the most eye-popping and beautifully measured performances in Brazilian television, theater and cinema, is also an artist who is deeply interested in philosophy, life, religion, poverty and, yes, death.

This interview was conducted in Portuguese:

RB: A experiência traumática (por exemplo, a morte de uma criança, o incesto …) está enraizada nos conflitos principais do seu filme. É como se tudo que acontece nesses dois dias fosse uma tentativa de simbolizar esses traumas, de entendê-los e aceita-los. Você concorda com essa leitura? Você pesquisou rituais e movimentos religiosos na fase inicial do seu filme?

MN: Sim, acredito que as religiões têm o papel fundamental de reconciliar-nos com o trauma fundamental: A certeza da morte. Georges Battaille nos descreveu em sua obra máxima, ‘O Erotismo’, como seres ‘descontínuos’. A idéia é relativamente simples. A reprodução sexuada gera seres incompletos e solitários, que necessitam do outro para perpetuar a vida. A ‘continuidade’ é obtida apenas no encontro com o outro. Na série humana, complexa ao extremo em sua consciência da morte, em seu horror diante da idéia da morte, a busca pelo ‘contínuo’ é permanente e plural. Estamos iludidos de ‘continuidade’ no amor romântico, no gozo extremo dos corpos na cama, é claro’ mas também nos estádios de futebol, nas revoluções violentas, na platéia trêmula diante de Medéia e Édipo Rei, mas principalmente nos cultos religiosos. Nos rituais sagrados estamos unidos diante de Deus. Todos os povos, em todos os tempos, desde a estréia da humanidade, unem-se de algum modo diante do disforme sagrado e oram. A oração coletiva nos faz ‘contínuos’. Oramos porque morremos.

Matheus Nachtergaele in Yellow Mango

Matheus Nachtergaele in Yellow Mango

RB: Acho interessante que na história do seu filme, a tradição da festa da menina morta é um movimento religioso novo, que começou a pouco tempo (20 anos). De certa maneira, fenômenos religiosos como esse são movimentos modernos, apesar de as vezes acharmos que o contemporâneo é sinonimo de secularidade. E nesse sentido, além de uma crítica social, o seu filme conta uma história de uma comunidade em busca de sua própria indentidade, pois precisa dela para se manter coesa perante ao mundo (e também perante a pobreza). Será então que A Festa Da Menina Morta fala de uma tendIencia religiosa global e não só brasileira?

MN: Procurei traçar um retrato íntimo dos vários envolvidos numa seita religiosa. Cada personagem carrega seu luto específico, um terror específico perante seu próprio destino, e todos eles, abismados com suas próprias vidas, prostam-se diante dos farrapos de seus sonhos, simbolizados aqui nos trapos da roupa de uma criança morta. Prostamo-nos diante de Jesus crucificado, da galinha ou ovelha morta na oferenda sagrada, da suposta possuição de um médium por um ente querido já morto, diante da fúria de Deus na natureza quando ela ruge. Ter fé é o espanto comum a todos os povos diante do que não dominamos, diante da morte. Procurei amalgamar tendências de diversas religiões que regem o povo brasileiro, mas tudo poderia acontecer, creio, em qualquer parte do planeta, em qualquer tempo da terra.

RB: Voce atuou nos dois últimos filmes do Claudio de Assis, o Amarelo Manga e o Baixio das Bestas, e acho que seu cinema tem uma certa afinidade com o dele. Você aprendeu algo sobre direção trabalhando com o Assis? Foi ai que começou o seu trabalho com o Hilton Lacerda?

MN: É verdade que sou um colaborador do cinema de Claudio Assis, e nesse sentido somos uma espécie de grupo. Trabalhamos juntos em vários projetos, eu, Hilton Lacerda, Renata Pinheiro, Lula Carvalho. É natural que eu queira me cercar de parceiros que admiro, e com quem  compartilho idéias, um sonho para o cinema brasileiro. Mas o campo poético do meu filme e dos filmes de Claudio são diversos: acredito que eu trabalhe numa região mais fantástica que ele, e políticamente sou menos agressivo ou menos frontal. È claro que uma das ‘camadas’ d’A Festa da Menina Morta’ é política. Ao examinar o abandono territorial e institucional dos índios e caboclos do Amazonas, estou falando de política. Mas o centro da discussão é um outro. A violência de meus personagens habita outras zonas da alma humana. Estamos falando das maravilhas e horrores da fé. Mas digo, Claudio me ensinou uma coragem temática que carrego sempre comigo.

RB: Foi difícil achar o seu olhar de diretor depois de trabalhar com tantos diretores fortes e bem sucedidos?

MN: Num primeiro filme, um amálgama de influências te carregam. De Bergman a Pasolini, de Kurosawa a Bodansky. Duras, Bataille, Aluísio Azevedo… Tudo corre em nossas vêias. Na hora de filmar, é preciso esquecer de tudo, mas tudo estará ali. E aos poucos, a poética particular de um estreante poderá ser entrevista…Os mais atentos perceberão.

Matheus

Matheus

RB: Tadeu, o personagem vivido Juliano Cazarré, vive sozinho em sua lucidez e na sua coragem de dizer o que vê. “- Nao tem milagre nenhum não, minha mãe. Minha irmã morreu mesmo,” diz o Tadeu. “Isso aqui tudo é muito pouco. É muito triste.” A idéia de que o crescimento dos movimentos religiosos estão ligados ao aumento da pobreza economica é comum hoje em dia. Entretanto, o seu filme mostra que a religião é uma força que sustenta e esrutura o espaço coletivo (simbólico e real) de certas comunidades, e que ela até vira sinônimo de cultura. O que acha dessa mistura entre religião e cultura? Você acha essa substitução perigosa ou inevitável?

MN: Quanto maior a miséria física e cultural, maior o risco da ‘dominação pela fé’. A história nos legou momentos atrozes resultados da colisão entre culturas em estágios desproporcionais de desenvolvimento. O pavor à morte serve como  um ótimo instrumento para se domesticar um povo. Sinto saudade de um tempo que não vivi, onde religião é cultura. Onde o rito está tão intimamente ligado ao cotidiano que não pode ser distinguido dele. Os gregos viveram isso: A musa não está, ela é. Também isso ocorre ainda nas religiões negras e na pajelança indígena. Entre os índios, os próprios instrumentos de trabalho são ‘sagrados’, elaborados de forma arístico-mística. Tudo é uma coisa só, e essa coisa é a vida na terra, com seus encantamentos e tormentos. E assim, o teatro de hoje é a continuidade profana da missa, o carnaval é a parte dionisíaca que se contrapõe às obrigações capitalistas… Sinto saudades de quando tudo era unido e orgânico, sagrado e profano, trabalho e festejo, homem e mulher.

RB: Onde você achou as trigêmeas espaciais?

MN: Inventei. Elas são o desejo do caboclo de ser ‘cyber’ também….

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